A Taberna

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Choque
Cultural -
10-07-2002
Uma mãe grande e gorda, vestido azul, lantejoulas e tudo, arregaçado sobre as pernas.
Eu tímido, pequenino, (tenho esta característica de me encurtar nos momentos e de me engrandecer nos intervalos) vermelho, num canto.
1...
2...
eu
a contar, fascinado pela magnífica figura grande, gorda, branca à minha
frente, de pé, imponente, eu
com um nó na garganta, caladinho num canto a engolir em seco os perdigotos, a língua
de fora mordida para que não suba a tensão...
3...
4...
as
veias, os punhos...
5...
6...
sentado
na borda da cadeira, como que em bicos de pés no limite entre a civilização e
a barbárie. A cultura popular à minha frente, palpitante, de sangue na guelra,
honrada, vaidosa, grande, inflamada, digna, igual a si própria, a inchar como
um sapo com um cigarro na boca, prestes a explodir, verde e tudo, e ainda o
vestido azul, lantejoulas e tudo, apertado nas ancas, nas pernas gordas, o
vestido a menos, as lantejoulas a mais e eu disse-lhe isso mesmo – que é para
que saiba – na cara, que é como eles gostam...
7
...
não
cheguei ao 8.
Levei
na cara, que é como eles gostam e é tradição.
Incompetência para as coisas terrestres - 05-07-2002
Tudo o que preciso é de tempo para entender o passado e desenhar na areia imaginária formas ridículas à volta das pedras estendidas nas toalhas veraneantes em praias de bandeira azul.
Acabar
de uma vez por todas com o poder que tem sobre mim esta monotonia crescente.
Nunca
mais repetir versos inúteis e pretensiosos que teimo em gravar a golpes de
picareta nos muros da minha cidade. Silabas ritmadas, solitárias e tristes, como
um corpo torto na calma nocturna de uma discoteca. Mínimo debaixo das luzes de
fogo encostado ao bar de copo na mão, apreensivo de voltar para o leito materno
finalmente convencido da sua incompetência para as coisas terrestres.
Consumo
o mínimo enquanto procuro nas montras simulacros de profundidade que me deixam
tonto - um choque cultural:
“Pamplona,
Barrancos em três horas e meia”, empurrado pela onda furiosa de cascos em
granito, música de tambores sádicos que vibram em vielas, ruas, avenidas e
auto-estradas entre ecos deturpados de sorrisos e aplausos, anéis de fogo que
pairam sobre mim.
De
volta ao leito materno que cheira a inocência perdida, sémen estupidamente
derramado por sacerdotes testiculares que insistem em protelar por gerações e
gerações a nossa óbvia incompetência para as coisas terrestres.
Carta
de Suicídio. 06-06-2002
Recentes
acontecimentos que me isolaram na minha vida levaram-me a tomar esta decisão.
Vou espetar um tiro nos miolos. De facto, o acto para muitos tresloucado, para
mim nada abjecto mas apenas decorrente de alguma ponderação a quente já
aconteceu.
É
isso mesmo, já premi o gatilho e tenho neste preciso momento que vos escrevo
uma bala alojada na parte esquerda do crânio – pensei que o atravessaria de
um lado ao outro, mas deve ter embatido em qualquer duro preconceito que por
esquecimento ou incompetência ainda não tinha eliminado. Sim, ainda estou vivo
e ainda bem porque imediatamente a seguir ao disparo, talvez por efeito do
estrondo e do abanão se tenha sucedido uma qualquer reorganização das ideias
e uma rápida revitalização do espirito, tipo coice de mula, que me tirou a
vontade de morrer. Dói-me a cabeça e estou um pouco tonto, fora isso, normal.
Estou
agora a tentar tirar a bala com o instrumento cirúrgico que tinha mais à mão,
uma caneta Bic azul. Espero que, caso sobreviva a esta perigosa operação, o
período de reabilitação seja rápido e, mais importante, que nenhuma das
minhas capacidades seja afectada. Talvez fosse bom perder a memória pois assim,
uns “recentes acontecimentos...”, deixando de existir formalmente, não mais
me apoquentariam. O reverso da medalha é que sem a memória, deixaria de
reconhecer os destinatários desta carta. Imagina o que seria, eu passar por ti
na rua e em vez do sorriso habitual te presentear com a minha indiferença
involuntária!
Provavelmente
me perguntarias: “Que buraco é esse que tens na cabeça, TomaZ?” Ao que eu
responderia: “Quem é a(o) senhora(o)?”
Já
está. Consegui tirar a bala. No entanto, durante o processo, ao vasculhar a
massa cinzenta com a caneta Bic, pintei-a toda de azul. Merda, nódoas de tinta
são fodidas de sair. Alguém sabe a receita? Não é que esta nova tonalidade
cerebral tenha alterado alguma coisa. Está, aparentemente, tudo na mesma, – a
minha mão direita treme freneticamente, recusando-se a obedecer-me, mas
suspeito que isso seja um efeito pós-traumático que desaparecerá em pouco
tempo – mas um cérebro azul é uma coisa nunca vista e para ser diferente dos
outros já basta um buraco na cabeça.