A Taberna

 

TomaZ, uma pequena biografia

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Choque Cultural - 10-07-2002

Uma mãe grande e gorda, vestido azul, lantejoulas e tudo, arregaçado sobre as pernas.

Eu tímido, pequenino, (tenho esta característica de me encurtar nos momentos e de me engrandecer nos intervalos) vermelho, num canto.

  Isto é um café, não é uma biblioteca. O senhor deixe-se estar para ai sentado mais os seus livros ou eu expludo num êxtase de perdigotos, língua de fora, veias salientes, punhos cerrados, a morder a raiva para não deixar subir a tensão...calma...

1... 2...

eu a contar, fascinado pela magnífica figura grande, gorda, branca à minha frente, de pé, imponente, eu com um nó na garganta, caladinho num canto a engolir em seco os perdigotos, a língua de fora mordida para que não suba a tensão...

3... 4...

as veias, os punhos...

5... 6...

sentado na borda da cadeira, como que em bicos de pés no limite entre a civilização e a barbárie. A cultura popular à minha frente, palpitante, de sangue na guelra, honrada, vaidosa, grande, inflamada, digna, igual a si própria, a inchar como um sapo com um cigarro na boca, prestes a explodir, verde e tudo, e ainda o vestido azul, lantejoulas e tudo, apertado nas ancas, nas pernas gordas, o vestido a menos, as lantejoulas a mais e eu disse-lhe isso mesmo – que é para que saiba – na cara, que é como eles gostam...

7 ...

não cheguei ao 8.

Levei na cara, que é como eles gostam e é tradição.

 

 


 

Incompetência para as coisas terrestres - 05-07-2002

Tudo o que preciso é de tempo para entender o passado e desenhar na areia imaginária formas ridículas à volta das pedras estendidas nas toalhas veraneantes em praias de bandeira azul.

Acabar de uma vez por todas com o poder que tem sobre mim esta monotonia crescente.

Nunca mais repetir versos inúteis e pretensiosos que teimo em gravar a golpes de picareta nos muros da minha cidade. Silabas ritmadas, solitárias e tristes, como um corpo torto na calma nocturna de uma discoteca. Mínimo debaixo das luzes de fogo encostado ao bar de copo na mão, apreensivo de voltar para o leito materno finalmente convencido da sua incompetência para as coisas terrestres.

Consumo o mínimo enquanto procuro nas montras simulacros de profundidade que me deixam tonto - um choque cultural:

“Pamplona, Barrancos em três horas e meia”, empurrado pela onda furiosa de cascos em granito, música de tambores sádicos que vibram em vielas, ruas, avenidas e auto-estradas entre ecos deturpados de sorrisos e aplausos, anéis de fogo que pairam sobre mim.

De volta ao leito materno que cheira a inocência perdida, sémen estupidamente derramado por sacerdotes testiculares que insistem em protelar por gerações e gerações a nossa óbvia incompetência para as coisas terrestres. 

 


 

Carta de Suicídio.  06-06-2002                                     

Recentes acontecimentos que me isolaram na minha vida levaram-me a tomar esta decisão. Vou espetar um tiro nos miolos. De facto, o acto para muitos tresloucado, para mim nada abjecto mas apenas decorrente de alguma ponderação a quente já aconteceu.

É isso mesmo, já premi o gatilho e tenho neste preciso momento que vos escrevo uma bala alojada na parte esquerda do crânio – pensei que o atravessaria de um lado ao outro, mas deve ter embatido em qualquer duro preconceito que por esquecimento ou incompetência ainda não tinha eliminado. Sim, ainda estou vivo e ainda bem porque imediatamente a seguir ao disparo, talvez por efeito do estrondo e do abanão se tenha sucedido uma qualquer reorganização das ideias e uma rápida revitalização do espirito, tipo coice de mula, que me tirou a vontade de morrer. Dói-me a cabeça e estou um pouco tonto, fora isso, normal.

Estou agora a tentar tirar a bala com o instrumento cirúrgico que tinha mais à mão, uma caneta Bic azul. Espero que, caso sobreviva a esta perigosa operação, o período de reabilitação seja rápido e, mais importante, que nenhuma das minhas capacidades seja afectada. Talvez fosse bom perder a memória pois assim, uns “recentes acontecimentos...”, deixando de existir formalmente, não mais me apoquentariam. O reverso da medalha é que sem a memória, deixaria de reconhecer os destinatários desta carta. Imagina o que seria, eu passar por ti na rua e em vez do sorriso habitual te presentear com a minha indiferença involuntária!

Provavelmente me perguntarias: “Que buraco é esse que tens na cabeça, TomaZ?” Ao que eu responderia: “Quem é a(o) senhora(o)?”

Já está. Consegui tirar a bala. No entanto, durante o processo, ao vasculhar a massa cinzenta com a caneta Bic, pintei-a toda de azul. Merda, nódoas de tinta são fodidas de sair. Alguém sabe a receita? Não é que esta nova tonalidade cerebral tenha alterado alguma coisa. Está, aparentemente, tudo na mesma, – a minha mão direita treme freneticamente, recusando-se a obedecer-me, mas suspeito que isso seja um efeito pós-traumático que desaparecerá em pouco tempo – mas um cérebro azul é uma coisa nunca vista e para ser diferente dos outros já basta um buraco na cabeça.  

 

Correio da Taberna